Por que acabou o gás em São Carlos?

Por que acabou o gás em São Carlos?

23/04/2020 Off Por Editorial Tribuna São Carlense

Botijão de gás previne contra o novo vírus?

Há cerca de três semanas São Carlos sofre de um sério problema de desabastecimento de gás de cozinha. A pandemia está diretamente relacionada à situação, mas isso é apenas o início da cadeia de problemas.

Um fator que contribuiu para o desabastecimento foram os decretos e orientações do governo. Eles levaram as empresas fornecedoras de gás a afastar os trabalhadores que estão em  grupos de risco de seu quadro de funcionários. Isso pode ser positivo no que diz respeito à prevenção contra a Covid-19, porém pode dificultar a capacidade de prestação de serviços de algumas empresas. Além disso, o trabalho daqueles que continuam aumenta para cobrir o daqueles que foram afastados, ou seja, mais uma carga nas costas dos trabalhadores e a possibilidade de redução do salário de quem foi afastado. Os trabalhadores da Petrobrás estão reivindicando melhores condições de trabalho para que possam manter-se saudáveis e seguir produzindo os derivados de petróleo. Apenas deste modo poderão garantir o abastecimento de ambulâncias, hospitais, alimentos, remédios e do botijão de gás. A condição de vida e trabalho dos caminhoneiros brasileiros, responsáveis pelo abastecimento em todo o país, também está sofrendo os impactos: muitos dos serviços de beira de estrada estão fechados como medida de prevenção, inclusive restaurantes; eles também enfrentam baixas condições de higiene, que já era péssima antes da pandemia e agora se agravou; muitos precisaram parar o trabalho para cuidar de si ou seus familiares doentes e encontra-se completamente desassistidos pela característica autônoma do trabalho de muitos… sem contrato de serviço, não há dinheiro.

Assim, diante da extrema piora de suas condições de trabalho e risco de contaminação pelo Coronavírus, ameaças de greves e paralisações começaram a circular nas redes vindas de petroleiros (que as fizeram de forma organizada e unitária) e, principalmente por mensagens de áudio no WhatsApp, de caminhoneiros (que surgiram de maneira dispersa, principalmente por raiva do descaso dos governantes com os mais pobres).

Na cidade de São Carlos, o isolamento social parcial e fechamento do comércio aumentou o consumo de gás doméstico: agora há uma quantidade maior de pessoas preparando comida em casa. O medo pela falta de perspectivas do fim da crise da pandemia e o pânico gerado por notícias de possível greve das duas categorias levou uma parte da população a estocar botijões de gás de cozinha em suas residências.

Tudo isso impactou a produção e distribuição do gás de cozinha e diminuiu a oferta de botijões nas distribuidoras. Em conjunto, houve uma pausa na produção para manutenção das tubulações de gás da empresa responsável pelo abastecimento local. Essa manutenção ocorre anualmente, mas antes da pandemia não gerava situações de desabastecimento na cidade, até porque isso afetaria os lucros das empresas sedentas pelo valor financeiro.

Só que agora, pela estocagem de gás, casas que antes contavam com apenas 1 botijão passaram a ter 2 ou até mais. Há relato de pessoas que saíam das distribuidoras levando três botijões novos de uma única vez. Pela possibilidade de aumento dos lucros, muitas empresas se beneficiaram da situação e continuaram vendendo seus estoques, mesmo que isso significasse um desabastecimento na região. Isso prejudica aqueles que não precisaram ou não tinham condições de fazer estoque naquele momento: posteriormente, basta para as distribuidoras encomendar novos vasilhames que entrarão em circulação (ver imagem ilustrativa da situação). Não pensaram que agora os trabalhadores e população como um todo encontram-se vulneráveis. Há pessoas passando grandes dificuldades para conseguir cozinhar em casa, se arriscando mais vezes em saídas que não seriam necessárias. Tudo em nome do aumento dos lucros e pela omissão do poder público em regulamentar o fornecimento de gás (e produtos básicos do cotidiano). Já existe o telefone 156 para receber denúncias da cobrança de preços abusivos no gás de cozinha, mas não estão atendendo as denúncias da venda predatória que se pôde observar.

No atual momento, pessoas chegam a demorar uma semana para conseguirem comprar o gás de cozinha. Também há pessoas que precisam comprar o vasilhame (por não tê-lo em casa), mas não há oferta, já que venderam parte do estoque. Estes botijões estocados nas casas já não cumprem mais seu propósito… fornecer gás. Sem gás, grande parte da população se vê obrigada a alimentar-se utilizando serviços de entrega. E como fazem aqueles que não tem condições financeiras? Para quem vive de cesta básica, na qual quase todos os alimentos que a compõe dependem de cozimento, a falta de gás de cozinha significa uma coisa: passar fome.

Várias distribuidoras já deixaram de atender telefonemas e clientes pela incapacidade frente à alta demanda. Algumas distribuidoras estão montando listas de espera de consumidores e atendendo por WhatsApp.

Essa situação mostra a importância da organização dos trabalhadores [1] e o papel do poder público na distribuição de insumos essenciais. A organização ajudaria a evitar o estoque de botijões nos domicílios ao, por exemplo, listar os domicílios com maior prioridade e falta do produto. O poder público deveria fiscalizar as distribuidoras, regulamentando a venda do gás de cozinha na cidade. Isso evitaria que as empresas aumentassem seus lucros em detrimento da vida da população. Também evitaria que os pequenos distribuidores se prejudicassem neste momento de crise e de maior competitividade: nessa corrida, as grandes distribuidoras largam quilômetros à frente, pois conseguem manter grande agilidade no atendimento e circulação das mercadorias (elas têm maiores capacidades administrativas, maior quadro de trabalhadores contratados, maior caixa e capital de giro, entre outros fatores).

Em meio a isso, vemos que as necessidades básicas da manutenção da vida dos trabalhadores vêm sendo ignoradas pelas empresas e pelo estado. Só nos resta evitar tomar ações por impulso e desespero neste momento de pânico geral. Não temos tempo para agir sem pensar. Para a população ignorada pelo poder público e pelas empresas, é preciso olhar para si mesma e solidarizar-se consigo mesma: a crise afeta sobretudo os mais e os mais ou menos pobres. Quem estoca gás prejudica esses grupos. Rico tem gás encanado [2].


Notas
  1. Um exemplo de organização dos trabalhadores pode ser vista em Paraisópolis, São Paulo.
    “Recém-empossados, todos se voluntariaram para o posto. São ‘presidentes, e vices, de rua’ que responderam a um chamado da própria comunidade que dizia: ‘Caro morador, conforme já noticiado na imprensa, os moradores das favelas brasileiras serão as principais vítimas da pandemia da Covid-19. Os governos (federal, estadual e municipal) até agora não apresentaram NENHUM plano para proteger os habitantes de Paraisópolis. Por isso o G10 das Favelas fará sua parte e solicita o apoio de todos os moradores’. Ao todo, eles são 420, divididos em 210 duplas.
    Agora, cada uma delas é responsável por prover o mínimo para pelo menos 50 famílias das vias em que moram.” disponível em <Paraisópolis tenta proteger mais vulneráveis contra coronavírus e miséria>
  2. Gás encanado é quase 30% mais caro que gás em botijão: Gás de botijão ou gás encanado? Veja qual sai mais barato

Referências

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https://tribunasaocarlense.com.br/financiamento-coletivo/